Interface lamenta a morte do médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira, um dos nomes fundamentais da resposta do país à epidemia do HIV e à AIDS e grande defensor dos direitos humanos e do acesso universal à prevenção e ao tratamento da doença.
A história de Paulo Roberto Teixeira se confunde com a da resposta brasileira à epidemia de aids. Em 1983, quando pouco se sabia sobre a doença e os primeiros casos eram cercados por medo, desinformação, estigma e discriminação, esteve à frente da organização, em São Paulo, da primeira resposta governamental estruturada à epidemia no país. Essa experiência nasceu no contexto da redemocratização e do movimento da Reforma Sanitária, ajudando a afirmar princípios que se tornariam marcas da política brasileira: a responsabilidade do Estado, a articulação entre prevenção e assistência, a participação da sociedade civil e das pessoas afetadas pela epidemia e a defesa dos direitos humanos. Coordenou o Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo em diferentes períodos e, entre 2000 e 2003, a Coordenação Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, contribuindo para consolidar o acesso ao tratamento como dimensão indissociável do enfrentamento da epidemia.
Sua atuação ultrapassou as fronteiras brasileiras. Como representante da América Latina e do Caribe, participou da criação do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e integrou seu Conselho de Administração. Na Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, dirigiu o Programa de HIV e Aids e participou da construção da iniciativa “3 by 5”, voltada à ampliação do acesso à terapia antirretroviral nos países de baixa e média renda. Ao longo dessa trajetória, sustentou uma compreensão da resposta à epidemia que articulava ciência, políticas públicas, direitos e participação social: os avanços científicos precisavam chegar às pessoas, independentemente de onde vivessem, de sua condição econômica ou de suas práticas sexuais.
Em 2008, a Interface – Comunicação, Saúde, Educação publicou a entrevista “Política, direitos humanos e Aids: uma conversa com Paulo Roberto Teixeira”, de Martha San Juan França, que reconstitui, a partir de conversas com o sanitarista, sua trajetória desde a formação durante a ditadura militar até a criação do Centro de Referência e Treinamento de Aids de São Paulo, em 1988.
Mais do que pelos cargos que ocupou, seu legado está na construção coletiva de uma resposta que compreendeu que enfrentar o HIV e a aids significava também enfrentar o preconceito, a discriminação e as desigualdades, garantir informação, prevenção, cuidado e tratamento e reconhecer a autonomia e a participação das pessoas diretamente afetadas. Essa resposta foi construída por pessoas vivendo com HIV e aids, ativistas, movimentos sociais, pesquisadores, profissionais de saúde, gestores e instituições públicas — uma articulação que Paulo reconhecia como fundamental. Mais de quatro décadas depois dos primeiros casos no país, permanecem atuais os princípios que orientaram sua trajetória: defender a saúde é também defender direitos, dignidade e vida.
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